Hoje não escreverei sobre ninguém, não me preocuparei com o romance, não procurarei ligações entre ocorrências, não projetarei seja o que for, não divagarei, nem planearei, muito menos experimentarei novas formas ou vias. Hoje, vou permanecer comigo, apenas, sem qualquer arremedo de companhia. Vou ser completamente real.
Não sei com precisão o que tal possa significar, nem sei se restará algo em mim depois de me despir de todo o resquício de imaginação, mas é o que farei.
Na pior das hipóteses, esta é uma opção que servirá para me deixar entregue aos ditames exclusivos da pele com que me cubro todos os dias. O meu odor, o meu reflexo movendo-se, a minha história isenta de subterfúgios, o meu olhar desprovido de ornamento sobre as coisas, a minha forma de pensar sem artifícios, o meu caminho entregue ao seu próprio destino. É a solidão no seu pleno sentido, uma condição perfeitamente tolerável quando resultante de uma escolha consciente e objetiva. Escrita reduzida à nudez de cada letra no seu contorno.