Gilc vai chegar dentro de minutos. Não imagino o que me dirá, nem tenho qualquer ideia sobre as palavras que pronunciarei quando vir a porta abrir-se e a casa ser inundada de transparências.
Há um tropel de emoções dentro de mim. Tento distrair-me com uma leitura ou um programa televisivo, mas a inquietação ainda se torna maior e mais apoquentadora. Até parece um mau presságio. Contudo, sei que Gilc é uma boa notícia em qualquer parte. Sei que resistiu a muito e que tem preparação para os imprevistos. Não sei se o sei ou se apenas o desejo, mas Gilc vem do fogo e das suas arestas suaves rente ao calor que reverbera a noite.
Lembro a hora em que nos encontraremos ao pé do rio para ver os barcos que há tantos anos passaram nas suas águas, enquanto conversaremos do que ocorreu nas nossas vidas, do que nos rasgou a pele, dos amores que fomos capazes de salvar.
Tinham passado mil noites. Havia uma suspensão murmurada que repunha o encadeamento dos sítios. Voávamos a mais de dez mil metros de altura.
Gilc disse que estava com fome e deitou a cabeça no meu ombro. A seguir, pediu-me uma almofada. Levantei-me e arranjei-lhe uma. Depois, entreguei-lhe uma manta para amenizar o frio que vinha do ar condicionado.
...Meu Deus de pés no chão e rosto coberto de dúvidas, quanto me permitiste em todos estes anos. Como se o essencial estivesse apenas a começar.