Oiço chover enquanto espero na cama que venha o sono. Chuva no telhado e nas árvores do jardim. Chuva nas sombras da noite baloiçante.
Gosto do que oiço. Apetece-me ouvir. Ouvir apenas e mais nada.
Agasalho-me sob os cobertores, enrolando o corpo em busca de algo mais do que a cama me costuma dar.
Sinto os músculos estenderem-se em direção aos espaços murmurantes da roupa.
Não me contenho. E pressinto sensibilidades para lá das ondulações, sugando-me para o vazio inerte dos lugares onde não há palavras que façam sentido. Só olhares crescendo sob os lençóis na escuridão que me toma conta dos delírios.
De repente, assalta-me a impressão nítida de que já não chove. Procuro confirmar, mas penetra-me um calor que não sei de onde vem. E é esta indefinição que mais me seduz. Este não saber ao certo. Subitamente avassalador.
Vou por ali dentro, sem olhar a nada, para que seja maior a sensação do paraíso na funda expiração, que prolongarei por horas, enquanto o sono me vier abençoando.