domingo, 31 de março de 2013

11
Certa vez, vinha numa daquelas ruas sebentas de Lisboa junto às janelas baixas cheirando a azedo quando dei por mim com Denz a abraçar-me, a beijar-me e a dizer-me: “Pensei que nunca mais te encontrava, pensei que nunca mais te encontrava!”
Mal tive tempo de refletir ou reagir. Deixei-me beijar e abraçar, até que nos sentámos no peitoril de mármore de uma janela e nos olhámos de rostos abertos a sorrir.
Denz trazia novidades, via-se na sua expressão de calma febril. Tinha entrado para a faculdade e estava a pensar contrair matrimónio.
Apressei-me a dizer que não se precipitasse, que era muito cedo, que devia esperar pelo fim do curso, mas vi nos seus lábios cerrados que não estava a concordar comigo.
A paixão estava a consumir Denz. Ia deixar a vida livre que tinha, por um compromisso que, mais tarde ou mais cedo, fracassaria. Denz só era compreensível à margem de regras e amarras. O casamento ia fazer-lhe mal. Mas não tive condições para lhe dizer o que via.
Quando nos separámos, dava a sensação de terem passado décadas e de haver uma dor de fundo seguindo os seus passos de silêncio sobre a calçada.