Deambulávamos pela cidade como seres acabados de chegar de um além onde as regras não eram de grande aplicação. Éramos muitos e não tínhamos rumo. Ríamos, falávamos e dançávamos pelas horas dentro, quando a rua era polvilhada de gente também sozinha, feliz e irresponsável.
Passávamos horas nos cafés e depois seguíamos para onde calhava em busca de momentos vibrantes, como jogar pingue-pongue, visitar igrejas obscuras onde nos envolvíamos em beijos e apertões por detrás de colunas rente aos altares dos santos no seu veludo austero, jantar em casa de gente amiga e beber a noite até cair na cama de alguém que nos aceitava de braços abertos mesmo que nessa altura já não fôssemos capazes de prendar com um beijo aquela inconsciência que nos recebia nos lençóis do seu corpo.
Tudo ardia na nossa loucura sem tamanho e sem idade. Ardia como um rio que corre na direcção desconhecida, como se pudesse haver esperança nos confins da escuridão que atravessávamos. Éramos muitos e deambulávamos numa liberdade sem preço.