domingo, 31 de março de 2013

8
Durante anos pensei que me devia poupar na escrita para não se me esgotarem as ideias. Pensei que a escrita tinha um fim. Como tudo. Mas o que fiz, em lugar de poupar a criação, foi abortá-la, anulá-la. Impedi-a de viver, de tomar forma, de se afirmar. Mas também pode ter acontecido eu não ter tido capacidade para potenciar o que havia em mim de ideias e de escrita. Ou não ter acreditado no meu poder. No fundo, tive medo, não confiei.
Hoje, vivo a escrita de outra maneira. Sem ideias pré-concebidas, sem calculismos. Deixo fluir. Não me contenho. Mesmo que quisesse, não conseguiria deter as palavras que brotam em mim a todo o instante. Palavras escritas, não palavras ditas. Palavras registadas em furor, que me invadem de todos os recantos e países. Como um mar bravio que me assalta e me arrasta no torvelinho das espumas promíscuas.
Escrevo tudo o que sou a todo o momento. A criação não se esgota. Nem poderia esgotar-se.