domingo, 31 de março de 2013

16
Larj coçava as mãos e arrancava peles junto às unhas, sem esconder o seu nervosismo. Jez tinha saído há mais de doze horas e ainda não voltara, apesar de os ponteiros do relógio marcarem dez minutos passados das quatro da manhã. Já havíamos contactado polícia, bombeiros, hospitais, sem resultados. Era tarde para incomodar pessoas amigas ou conhecidas.
Larj não sabia para onde se voltar ou o que mais conjeturar na tentativa de esclarecer um tal desaparecimento. Falava comigo, mas sentia-se que a sua ideia estava em mil e um lugares ao mesmo tempo, não sendo capaz de se orientar em qualquer deles.
Pedi-lhe que deixasse de arrancar peles das mãos, mas a resposta que obtive foi que não se conseguia controlar. Não insisti porque me pareceu natural que naquele momento não houvesse razão na sua forma de agir. Os seus olhos brilhavam de ansiedade, como se procurassem uma saída mágica para o problema. Por fim, sem mais alento, deixou-se cair num dos cadeirões da sala de estar e imobilizou-se por completo. Nem um ai, nem uma lágrima. Só um apagamento radical, que me fez sentir longe e sem remédio.
A noite parecia mais funda do que nunca. Olhei pela janela e apenas vi o frio balançando nas folhas das árvores, como se não houvesse rua em baixo, nem outras ruas além. Só o frio e nós pairando no seu manto.