Não me admirava que Jez tivesse dado o fora. No fundo de mim, havia mesmo a suspeita de que tão cedo não teríamos notícias suas, embora eu não tivesse qualquer intenção de partilhar a minha desconfiança com Larj. Qualquer coisa me dizia que algo levara a sua vida para outra direção. Lisboa fervilhava por todos os poros e não era difícil encontrar uma porta aberta para outra forma de ver ou de acreditar. Talvez não tivesse deixado o país, mas andaria muito provavelmente por rumos imprevisíveis.
Eu também desaparecera na minha juventude, por razões que nunca soube explicar a quem me pediu contas. Passei noites a deambular por vários sítios da cidade e quando cheguei a Santa Apolónia limitei-me a entrar no comboio que estava de partida, sem me preocupar sequer em adquirir bilhete.
O serviço de revisão nunca chegou a detetar-me. Deixei-me ficar pelo Porto durante dias. Talvez uma semana. Dormi nos lugares mais improváveis, mas não passei frio nem fome. Houve sempre alguém que me ajudou, seguiu, deu dinheiro, comida. Até passei uma noite na cozinha de um restaurante. Quando acordei, deram-me comida para várias refeições. No regresso a Lisboa, tinha mais dois quilos, o que pode ter contribuído para que em casa não tivessem feito grande alarido com a minha ousadia.