domingo, 31 de março de 2013

28
Antes de amanhecer, Nobe levantava-se e saía, pé ante pé, na certeza de que era cedo demais para lhe interromperem os passos. Chegava à rua, onde o frio era cortante, e voltava pelo caminho da noite anterior, tentando reconhecer as saliências dos prédios, os reflexos da luz pálida nos vidros, o fugaz despontar dos musgos nos cantos, as portas mal fechadas. Por vezes, quando encontrava uma aberta, entrava e passava o resto da noite ao comprido num dos degraus da escadaria. O frio que sentia prejudicava-lhe a capacidade de pensar e de analisar o tempo que havia de vir. Tremia quase permanentemente, mas tinha a certeza de que aquele era um esconderijo seguro. Não queria que o seu paradeiro fosse conhecido. Os perigos eram variados e imprevisíveis. Nas noites mais frias, cobria-se com jornais e deixava-se consolar pelo aceno de um calor esquivo sobre o rosto.
Mas havia que não demorar ali, também, para que não detetassem os lugares onde se guardava. Antes que a primeira claridade despontasse, levantava-se a custo, desentorpecia, sacudia o pó da roupa e descia para a rua, com os músculos tremendo, a visão tremendo, o sangue tremendo sem parar.