domingo, 31 de março de 2013

27
As noites de Lisboa perdiam-se em becos de pequenas luzes, com sombras oscilantes, rente às paredes encardidas das casas, muros e janelas baixas, como quem busca o momento da sua explicação desde a infância. O futuro media-se nas pedras irregulares que se iam repetindo sobre o passeio, ao ritmo de ideias, medos, angústias, pressentimentos.
Quando entrasse no prédio onde vivia, Nobe daria com o cheiro a ostras nas escadas de madeira apodrecida rangendo sob os sapatos, tentaria chegar ao seu quarto sem ver ninguém, mas era mais do que certo Lhan aparecer e pôr-se a contar-lhe a história do tempo em que chegara a Santa Apolónia num comboio do Norte, tremendo de susto e de fome, sem saber que caminho dar ao seu destino.
– Hoje, é tudo uma festa, não há horas de entrar nem de sair, andam sempre na rua, não querem trabalhar, é só berrar, todos contra todos, ninguém se entende, estou aqui a pensar no que pode acontecer, só que não tenho quem me oiça, não lhe quero tirar tempo, mas recebi um telefonema muito estranho hoje de manhã, que até fiquei com a cabeça à roda, uma daquelas tonturas que há muitos anos não tinha, sei que se quer ir deitar, mas quem lhe parece que pode ter telefonado? Acha que alguém me quer mal?
Nobe ouvia Lhan durante horas. Não conseguia arredar pé da sua conversa, porque havia sempre um pormenor, algo mais, uma pergunta, uma dúvida, que exigia a sua atenção e presença. Enquanto ouvia histórias em tropel umas sobre as outras, observava as palavras de Lhan como se tivessem forma, peso, cor, e pensava em coisas longe dali, com outras vozes, que viriam à sua procura na ocasião em que menos esperasse, provavelmente quando a sua vida estivesse entregue ao sono fundo, sem se poder defender.