domingo, 31 de março de 2013

25
Certa noite, passou na rua um descapotável de dois lugares a alta velocidade e houve uma quantidade de gente que se pôs a saltar no passeio, acenando e gritando, até que a sua presença se tornasse irresistível. Nós fazíamos parte do grupo. A dado instante, quase me esqueci, quase me pus à margem, mas não era possível, mesmo que quisesse. Viver era andar à mistura na rua com gente chegada de toda a parte e que vinha para testemunhar com os seus próprios olhos. Eu fazia parte daquele grupo aos berros no passeio, acenando a um descapotável vermelho de dois lugares que rasgava a noite como uma lâmina atravessada.
O descapotável travou umas dezenas de metros adiante, como se a tal tivesse sido obrigado, e quem o ocupava desapareceu sob as sombras e abraços de um sem número de corpos vibrantes que se precipitaram para dentro do automóvel como se houvesse ouro no seu interior.
O carro arrancou em poucos segundos, no meio de vozes estridentes de excitação, com braços e pernas em cima uns dos outros, sem saberem onde se agarrar, sem ao menos terem uma ideia de quem seguia ao volante, quem travava, quem acelerava…