domingo, 31 de março de 2013

24
Sur já não me convidava para tomar café há meses. Da última vez que o fizera, atrasara-se mais de duas horas e nem se atrevera a pedir desculpa, o que me pareceu estranho no seu comportamento. De então para cá, deixámos de nos ver, deixámos de nos contactar. Mas os nossos encontros ficam-me na memória.
Sentávamo-nos numa esplanada solitária para aquecer a manhã fria e as palavras nunca mais sossegavam.
Sur tinha família no estrangeiro e estava a pensar mudar de ares. Era uma possibilidade que me perturbava e esforcei-me por o dizer sem equívocos
A minha reacção provocou surpresa no seu rosto, mas nem por isso Sur desistiu da ideia de fixar residência noutro país.
Como nunca mais tive notícias do seu paradeiro, cheguei a pensar que tivesse concretizado o seu plano.
Por isso tive dúvidas quando vi que alguém me acenava de longe no momento em que eu pagava a conta do jantar. Mas era Sur, na verdade, em pose descontraída, fumando a um dos balcões do estabelecimento. Brotava jazz brotava das paredes e nada tivemos para falar. Vi que nos seus olhos não havia luz suficiente.