domingo, 31 de março de 2013

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Como vou contar os fracassos, as certezas, as promessas, as dúvidas íntimas que ninguém revelava nem sob a ameaça de bala? Como vou contrapor o sonho às chamas que brotavam das flores no alto das janelas? Como vou falar de frustrações, desvios, recalcamentos, aprendizagens distorcidas? Como poderei dizer as cores, as tantas cores, de bandeiras e mãos a acenar em que nos revíamos, nos pensávamos, nos inaugurávamos? Como serei capaz de escrever a miséria da alma, as ameaças que nos rompiam, os risos de escárnio que nos subjugavam, os dedos apontados quando passávamos sem saber que destino nos aguardava? Como esquecerei as cabeças inclinadas na direção da noite longa, os rumores que os olhos vazavam, os rostos vincados de medos que vinham de outras eras? Não há porta de entrada neste romance. Não tenho por onde começar. Nem quero ter. Para que me reste a liberdade.