Escrevo de longe estas linhas para ver melhor, para pensar melhor, para alcançar Lisboa de outros tempos, quando as caravelas passavam na barra do Tejo, ou quando Pessoa abandonava o Chiado sob a chuva miúda da tarde, aumentando o cinzento no coração da cidade com as suas calças a dançar nos tornozelos.
Escrevo de longe, sem ver nada, sem saber nada, sem pressentir nada, como se o meu mundo fosse outro e eu não tivesse que dar justificações.
Acordei ontem com a urgência de contactar Viri, de lhe telefonar, de lhe dizer alguma coisa. Senti que há muito tempo não dava notícias e admirei-me por ter sido capaz de um tal comportamento. Não fazia sentido. Eu não tinha motivos para manter tamanha distância. Mas quando me dirigia para o telefone, para dizer a Viri todo o meu amor e toda a minha saudade, lembrei-me de que havia morrido há vinte e quatro anos. Tive dificuldade em compreender o equívoco. Talvez tenha sido a influência de um sonho. Contudo, nem assim desapareceu a minha necessidade de falar com Viri. Fechei-me sobre mim, concentrei-me e recebi as palavras se sensatez que me dirigiu.