Demos connosco no lugar dos que ainda não tinham morrido, mas que esperavam. Era como se tivéssemos estado sempre ali, ardendo nas rajadas do frio que passava.
Encontrávamos suporte olhando o ar suspenso, como se não refletíssemos para além do que víamos, como se não tivéssemos capacidade para calcular o que viria, o que continuava para além do nosso fantasiar.
Não tínhamos memória. O passado deixara de ocupar espaço nas nossas conjeturas, deixara de fazer sentido na realidade que nos vergastava.
Éramos impressões vagas recortadas na noite, mal nos podendo mover, sob as ondulações dos reflexos que tiritavam como miniaturas de pessoas penduradas nos edifícios.
Não havia quem reparasse em nós. Era o que mais nos afetava. O que mais nos custava aceitar. Que estivéssemos no centro da cidade sem dar acordo de coisa alguma.