Enquanto não chega a hora de ir para o aeroporto, Larj faz as malas, organiza roupas, limpa calçado, guarda medicações, embrulha produtos de higiene. Dentro de pouco tempo, partirá de regresso a casa, fazendo descer o pano sobre duas semanas em que partilhámos o mesmo espaço.
No momento em que entrará no avião, o céu estará carregado, mesmo que as estrelas sejam visíveis, aqui da minha ponte sobre o rio, onde as águas fluem nas transparências da escuridão.
Sentirei a sua falta, apesar da nossa ligação permanente. Na plataforma eletrónica, o ar ainda não vibra, não reage, quando Larj passa de um quarto para outro na sua ligeireza de pés. É junto de mim que o seu perfume navega, enquanto o jazz vai derivando pela casa, sumindo-se pelos cantos, para se reencontrar em outras dimensões de linguagem indecifrável.
Estendemo-nos na cama e os objetos refulgem saudosos, as nuvens espreitam-nos das vidraças com o seu ar maroto, as paredes enchem-se de cor amarela à medida que o tempo se escoa.
Não demorará muito até que sucumbamos ao sono, para que o prazer venha pé ante pé, de pantufas, tomar a plenitude das nossas vidas.