Já não posso parar. Nunca mais. Se o fizesse, deixaria desabar o que me rodeia como um estrondo cuja origem se desconhece.
Escrever é a única actividade que me compensa. Nem de sonhar quero saber. Nada de conversar, passear, viajar, planear, jogar.
Zaragatear com a escrita, sim. Não consinto em acrescentar o que quer que seja à minha rotina. Só quero aprender com as mãos reflectidas nos olhos de pensar.
A escrita dá-me o essencial de que preciso: reflexão, aventura, risco, sentido do outro, incerteza, valores, visão do passado, noção do devir, poder de sobrevivência.
Por que me havia de afligir com outros assuntos?
Somo todos os dias neste espaço de registo, como num caderno que vai resistindo à idade, sem amarelecer, sem deteriorar, sem humedecer, sem esbater a cor da tinta. O que escrevo agora parece arquivado há anos e o que arquivei há anos parece derramado agora. Da minha alma.