Na noite antes de ter expulsado Minn do seu quarto, Sur tinha-lhe dedicado momentos de ternura como nunca antes fizera. Sentara-se no seu colo, fizera-lhe carícias no cabelo, beijara-lhe a ponta do nariz, agarrara-se-lhe ao pescoço com a força de um amor que não termina. A seguir, pegara em Ori e apertara as suas mãozinhas rechonchudas, afirmando que eram uma família para sempre feliz, em cujo seio jamais teriam lugar discussões ou zangas, só espaço de entrega, compreensão, tolerância. E Ori ria de excitação, corava e berrava, como se compreendesse o significado de cada palavra que ouvia, estendendo-se ao comprido no chão e rebolando por tamanha alegria.
Aquela noite de amor com Sur tinha sido das mais marcantes que Minn alguma vez vivera em quantos anos se recordava.
Depois de Ori adormecer, a conversa continuou. Minn não se cansava de abordar assuntos imprevisíveis e Sur não lhe ficava atrás, acrescentando perspectivas, opiniões, conjecturas.
Ao fim de horas, Minn pediu a Sur que apagasse a luz do candeeiro ao lado da cama, para que a escuridão viesse trazer outro alcance às suas palavras. Sur limitou-se a estender um braço sonolento para o pequeno interruptor que pendia rente à parede e logo a seguir abandonou-se ao lento torpor da inconsciência… enquanto Minn foi deslizando aos poucos para junto do seu corpo, como se tivesse necessidade de o ganhar para sempre, como se adivinhasse que aquela seria a última noite em que teria ocasião de o possuir.