O que Lisboa tinha de melhor era que as suas artérias e praças faziam esquecer os problemas como fogo ardendo nas esquinas sem que fosse preciso alguém acudir para o abanar e impedir a chama de morrer. As noites estrebuchavam de calor, até no frio gélido de Fevereiro, quando a pele me rebentava nas mãos sangrando.
As aflições e dúvidas passavam para trás das costas e eu saía de casa em correria desenfreada, sem me preocupar com esta ou aquela direcção, com este ou aquele temor, com esta ou aquela fúria desalmada.
Em poucos minutos, havia uma nova vida que começava nos passos que eu largava ao sabor do que ia sucedendo. Bastava-me olhar em frente e nada recear, nem as vozes que me chegavam de múltiplos lados, nem os olhares que me ofuscavam como se eu os enfrentasse pela primeira vez na expectativa de que me gritariam a qualquer instante.
Atacavam-me brilhos de origem desconhecida, assaltavam-me presságios, cercavam-me rumores, mas nem assim eu deixava de aparecer onde me apetecia, quantas vezes em tantos lugares ao mesmo tempo.