Não me posso livrar de Denz. Já é tarde demais para isso. Outrora, livrei-me de pessoas que ainda hoje guardam medos e ressentimentos pelo abandono a que as votei. Há gente que não esquece, não apaga vincos, por mais tempo que viva. Não é o caso de Denz, que tudo compreende, assimila, desvanece, no pó branco da sua alma.
Um romance vive de conturbações, raivas, emoções sem rédea; alimenta-se de conflitos, dúvidas, tensões; ganha volume na paixão e na solidão que se lhe segue. Contudo, os anos dizimam as artimanhas de qualquer entrecho, construindo subtileza e vento na rasura das suas páginas. O tempo mata o romance e a doidice que o enfuna. Dá cabo de vinganças, equívocos, zangas, enterrando-as no amarelecimento da escrita.
O tempo só não mata o ódio das almas que abandonei no deserto do mundo. Nem mata Denz, que dá vida e fulgor a este romance. Claridade nocturna que me vai enchendo a consciência de eterna vigília.