segunda-feira, 28 de março de 2011

Anos depois, Nobe apenas recordava vagamente o que lhe havia sucedido nas noites em que o vento rasgava as campinas, abafando as vozes que gritavam a pedir ajuda. Vozes distantes, mas nítidas e vivas, como se sangrassem, na casa que lhe servia de prisão.
Nobe não compreendia por que tinha sido alvo de um rapto que se prolongou por semanas. Nunca lhe fizeram perguntas, nunca lhe pediram ou exigiram o que quer que fosse, nunca lhe transmitiram a noção de que corria perigo. Das refeições que lhe serviam numa bandeja ferrugenta, não deixava um miolo de pão por devorar. Nem as cascas de laranja escapavam. Só não lambia o prato.
Ao fim de uma quantidade de noites de que perdeu a conta, acordou com a porta do quarto escancarada. Teve um sobressalto e foi investigar o que se passava. A casa estava vazia, quase se resumindo a uma ruína. Quartos despidos, paredes maltratadas, cozinha sem um tacho ou talher que se visse.
Por momentos, pensou que a sua vida tinha sido um sonho nos últimos tempos, ou um filme que de repente acabara, tal a irrealidade do que os seus olhos verificavam.
Mas antes que surgisse alguém capaz de aprisionar de novo a sua liberdade, Nobe apressou o passo no rumo do casario que divisava ao longe.
Não mudara de roupa desde a noite da sua detenção e nem um simples duche tomara. A caspa caía-lhe aos bocados da cabeça e o seu corpo exalava um odor quase nauseabundo.
Quando chegou à estação de comboios, sentiu que estava a salvo. Faltava-lhe dinheiro para comprar o bilhete de regresso a Lisboa, mas nem por isso se preocupou.