quarta-feira, 2 de março de 2011
A noite a seguir às lágrimas de Eid é sempre mais funda e carregada do que as outras noites, como se o peso da sua dor fosse transferido em bruto para a minha carne. Arrasto-me pela casa, com passos ansiosos, incapaz de enveredar por um rumo coerente e seguro. Eid nem imagina o que se passa comigo nessas ocasiões em que praticamente deixo de existir para estar na sua sensibilidade e na sua forma de ver. Impeço-me de falar muito para não me trair, por isso me arrasto para um quarto ou para o outro, para a cozinha ou para a casa de banho, como se algo me perseguisse, mas a verdade é que apenas busco estancar a pressão do tumulto silencioso que me assalta, me questiona, me intimida. Há sempre uma intimidação algures nesses momentos, um aceno escorregadio mal definido que me atrai ao ponto de eu não saber até onde me cabe ir, até onde corro o risco de soçobrar. Ninguém dispõe de condições para me prestar auxílio nesses tempos de irremediável aflição. A lembrança das lágrimas de Eid é o gume afiado de tudo o que vejo e sinto e compreendo.