Sentei-me no chão do Rossio e deixei-me ficar a ouvir os carros que passavam sob o esvoaçar dos pombos e das luzes que anunciavam o anoitecer.
Não faltava gente com sacos a caminho de casa, mas também havia quem parecesse viver na praça, tantas eram as horas em que se deixava lá ficar. Todos os que passavam a cada momento faziam parte da sua história, como as pedras da calçada, as frontarias das casas, as esplanadas sob os toldos, os quiosques, os anúncios publicitários, os candeeiros altos aos quais apetecia perguntar que traria o futuro.
Jovens recostavam-se contra a base do monumento que se erguia no meio. Quanto mais a claridade se sumia, mais luzes vibravam, mais se ouvia a impaciência dos motores prontos a arrancar após a mudança dos semáforos.
Ouvia-se falar brasileiro, espanhol, inglês. As pessoas olhavam-se como se estivesse para acontecer algo que não eram capazes de prever, mas que não as deixava preocupadas. Havia quem risse, gritasse, chamasse.
Pensei que me faltava dinheiro para comer e que também não tinha maneira de o conseguir.
Apareceram dois transeuntes a tocar música perto do local onde me encontrava. Um abria e fechava um acordeão, outro batia levemente num tamborete. Tocaram, tocaram, e depois o do tamborete aproximou-se das pessoas, pedindo contrapartida, enquanto o do acordeão repisava a sua melodia palpitante e alegre.
Ninguém puxou da carteira. Chegada a minha vez, senti que era meu dever remunerar a música que ouvira. Tanto mais que os dois rostos tocadores ostentavam uma estranha desilusão sorridente, da qual me apiedei como se fossem dois familiares meus votados ao desprezo.
Era Verão e ninguém arredava pé. As vozes iam subindo de tom, enchendo o Rossio de flores nas suas sombras coloridas.
Tentei não pensar no que me afligia. E pus-me a olhar para a porta de uma cervejaria, através da qual se via um balcão de vidro sebento sobre o qual repousavam vários frangos assados.