terça-feira, 3 de maio de 2011

Birs era de uma simpatia admirável, passeando pela casa em completo alheamento da realidade e olhando-me sempre como se fosse a primeira vez que me via. Por mais que lhe chamasse pelo nome ou que procurasse captar a sua atenção, não obtinha quaisquer resultados.
Porém, quando via Clint aos saltos do lado exterior da porta envidraçada, Birs considerava que tinha direito ao seu momento de desafio e, do lado de dentro, punha-se em ameaças com a pata diante do focinho de Clint. Quanto mais Clint se exaltava, mais Birs insistia nas provocações.
Certa vez, contudo, a porta abriu-se e Clint apressou-se a abocanhar Birs sem dificuldade. Apertou o seu corpo franzino bem apertado entre os dentes e desatou a correr aos saltos pelo jardim.
Ao ver Birs na iminência de ficar com as vísceras de fora, agarrei numa vassoura e fui atrás de Clint ordenando que libertasse Birs. Mas Clint estava em verdadeira euforia com a sua presa e não me obedeceu, antes se pôs a rosnar na minha direcção como se quisesse tornar claro que não estava na disposição de esquecer as provocações que Birs lhe fizera.
Dei tanta vassourada em Clint que provoquei a sua desistência e consegui, enfim, que soltasse Birs. O coração batia-me de forma descontrolada, Clint gemia ao comprido na relva e Birs aproveitou para se erguer, arqueando o tronco, como se tencionasse investir contra Clint.
Mas não chegou a dar um passo. Deve ter sentido que algo falhava no seu frágil equilíbrio e deixou-se cair no chão sem apelo.
Quando me baixei e fixei os seus olhos, a ver se se finara, notei que me observava com uma expressão de reconhecimento que nunca antes me dirigira.