O rosto que lembro foi afastado há muito tempo, sem se despedir. Partiu para a sua ausência. Deixou de escrever. Os seus olhos apagaram-se. Não voltarei a vê-los, nem a pensá-los com infinito.
Os seus pés atravessavam a paisagem da cidade ao encontro do eco que havia nas horas, como se cada minuto que pulsava trouxesse algo de novo.
Tinha cabelo alourado, pele magra, elegância, altura. Sentava-se a descansar e adormecia logo a seguir. Nunca soube a que horas chegava ou partia. Era como se estivesse sempre por ali, observando os ponteiros de coisa nenhuma.
Não comia. A fome não fazia parte do seu tempo. Falava pouco, como se não tivesse energia para gastar.
Uma vez, telefonou para casa, que distava de Lisboa centenas de quilómetros, e perguntou por todos, se estavam bem de saúde. Do outro lado, disseram-lhe que a sua família mudara de residência.
Depois de desligar, voltou a sentar-se com a expressão longínqua de sempre, como se a informação que recebera fosse dirigida a outro corpo.