Dres permanece na sombra daquele restaurante esconso, onde tantas vezes desenrascámos refeições, como se a noite fosse concebida à dimensão do nosso pequeno mundo. E era. Não tínhamos motivos para pensarmos de outra maneira.
Claro que o tempo passou e Dres, tal como eu, acabou por seguir o seu caminho. Todavia, sempre que recordo o nosso convívio é numa daquelas mesas que nos vejo, tomando decisões, desabafando desgostos, contando aventuras e perigos que nos enrolavam os fios da alma. A sombra das nossas cabeças sob a luz difusa enquanto as horas passavam.
Dres tinha um estilo cauteloso. Pensava antes de avançar. Ou nem precisava de pensar. Sabia, por natureza, por instinto, o momento certo de cada pessoa e de cada coisa.
Eu arriscava. Atirava-me antes de reflectir e só depois caía em mim (foi deste modo que me aconteceu quase tudo). Se ponderasse, não chegaria a concretizar o que quer que fosse. Avançar sem medir as consequências era a minha forma de vencer o medo. Depois, adaptava-me.