É como se o volante do meu carro só existisse se eu o escrevesse. Ou os meus sapatos, ou aquela casa, ou a rua que atravessa a cidade para trazer agitação à noite.
Sem ter a forma de palavra, como pode o volante do meu carro encontrar a direcção que persegue? Como podem os meus sapatos dar sentido aos pés que caminho? Como pode uma casa fazer sentido nas suas paredes e janelas? Como pode uma rua?
Só sei a utilidade de uma faca, de uma cadeira, de uma bicicleta, depois de as transformar em palavras concretas, definidas, registadas. Com todas as letras.
Considerem a minha posição desprovida de nexo, ridícula, excessiva, mas não consigo ver, nem viver, de outra maneira.
A escrita é a bênção que recai sobre o que aconteceu e está para acontecer, sobre as formas que as coisas vão tomando…