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Precipito-me para agarrar cada palavra, cada letra, como se fossem barcos que me levam para outro tempo, outro destino. Deixo-me ficar em novelo por entre tanta forma desenhada e nada digo, nada penso. Só agarro o que se me depara, o que consigo entrever, na esperança de que o vento me vá reduzindo a pó.
Depois, recordo em cada sílaba cada desejo de outrora, cada suspiro, cada projecto que ficou por realizar. Sorrio no meio da tragédia. Nada denuncio. Nem a ameaça do frio escorrendo nas frinchas como penugem.
Acendo um candeeiro no canto mais distante e observo os contornos das ideias ocupando a fugacidade das horas no reduto onde encontro sobrevivência. Lá fora, vê-se a noite transbordando de janelas iluminadas e as vozes erguendo-se, mansas, como num coro que se aproxima.