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Tinha cabelo preto, olhos azuis, pele branca, e deixava-se passear pelas ruas da cidade, sem que alguém se atrevesse a dirigir-lhe palavra.
Muitas vezes me apeteceu falar-lhe, perguntar-lhe coisas, saber algo da sua vida ou do seu passado, mas nunca me atrevi. Havia no seu rosto uma luz que afastava qualquer tentativa de aproximação.
Constava que tinha uma qualquer perturbação, embora fosse difícil de acreditar, tal o equilíbrio das suas formas, a aparente serenidade dos seus passos, a maneira leve e despreocupada como olhava as montras.
Nunca lhe assisti a uma alteração de humor, zanga, amuo, protesto.
Certa vez, vi a sua sombra de costas, num supermercado, preparando-se para pagar um pacote de bolachas, e ainda me aproximei, na tentativa de lhe ouvir uma frase, um murmúrio que fosse, mas não tive sorte. Limitou-se a tirar uma nota do bolso e a colocá-la sobre o balcão, tendo recebido o troco sem pestanejar e seguido em frente, como se nada em redor lhe dissesse respeito.