domingo, 22 de janeiro de 2012

83
Havia um olhar, algures, na escuridão. Um brilho ténue que me fulminava à distância. Não me aproximei por não ter a certeza do que poderia encontrar. E por recear que a sua força fosse maior do que a minha. Um olhar é sempre intransponível na brandura da sua dureza. É mais veloz do que todas as medidas, poderes, decisões.
Eu ainda não sabia o que iria encontrar e já sentia que não conseguiria sair do sítio onde tinha os pés. Como se algo me retivesse no meio dos meus próprios escombros.
A certa altura, pensei que poderia não ser exatamente olhar aquilo que eu via, que poderia não ser reflexo nem chama, mas qualquer outra coisa indefinida que me viesse confrontar com aspetos para os quais me faltava preparação e arrojo. Ocorrências do passado em cujas ruelas me perdera. Mas o olhar era precisamente o que parecia. Não havia equívoco possível.
Pensei com rapidez para não me deixar surpreender, porém, à menor hesitação, as ideias atropelavam-se umas às outras e eu não saía dali.
Irritei-me, bati o pé, belisquei-me, barafustei com a minha sorte e nem assim.
Quando ouvi o meu nome, percebi que tinha chegado o momento. Nem precisei de argumentar na tentativa de alterar o destino. O tom era decisivo. E final.