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Se me tivesse dedicado a pintar como poderia agora viajar com telas, quadros, pincéis tintas? Onde montaria ateliê? Como cirandaria de aeroporto em aeroporto, de cidade em cidade? Teria de carregar uma série de pesos, daqui para acolá e arranjar um sítio onde os colocar. Tanta cor, tanto traço. Precisaria de lugares seguros para garantir que não me fugiriam.
Com a escrita, ao menos, faço o que quero, circulo por toda a parte sem preocupações. Basta-me qualquer pedaço de papel para anotar ideias. Um simples teclado de bolso. Numa esplanada, num banco de igreja. Neste ou naquele canto se anota uma palavra. Não falta buraco onde patentear um texto. Pode ser guardado no fundo de uma gaveta, debaixo de um colchão, numa mochila, num recanto virtual. Os dedos estão lá e cumprem.
Não são necessárias testemunhas. Quanto mais secreta for a escrita mais poderosa se revelará. Quanto menos condicionada for, mais longe alcançará. Como a alma. Ou o olhar. Sempre em fuga. Para morrer menos.