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Vou retirando os livros das estantes, limpando-lhes o pó, organizando-os em torres sobre o chão. Quando já me resta pouco espaço para circular, coloco-os em caixas de cartão, procurando enchê-las o melhor possível. A seguir, colo-as com fita adesiva e marco por fora a área a que pertencem.
Quando já tenho suficientes caixas seladas e prontas, carrego uma por uma para o andar de baixo, onde as vou acumulando, à espera do dia em que contratarei uma empresa para as levar ao seu novo destino.
Todas as noites, procuro organizar e encaixotar uma quantidade razoável de volumes, porque me marquei um prazo para mudar de casa. Mas há ocasiões em que, por entre as mãos cheias de livros, me surgem, de repente, vindos não sei de onde, sons, visões, memórias, vivências, restos de conversas, ecos, pressentimentos antigos. Como se saltassem das páginas, surgem com uma tal nitidez que me vejo na obrigação de parar. Por serem insuportáveis as feridas que o vai vem dos livros deixa na consciência.