quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

76
Já parti e porém continuo a escrever como se os anos não tivessem passado.
E não passaram. Apenas vagueiam, em tom plúmbeo de rosa atravessando o canal do infinito. Quantas almas, em mim, tacteando.
Antes era a humidade, o peso, a angústia. Agora, a leveza, a luz, a calma. A perenidade.
Nada me pode afligir. Longe vai a tormenta.
Daqui alcanço a imensidão das consciências assomando. Mais imensas que o mar.
Parti aos poucos, sem despertar atenções. Como quem se apresta a ir por um caminho e, subitamente, qual névoa, se decide por outro.
Hoje, os meus passos não levantam suspeita. É como se flutuassem enquanto me repenso.
Livre de sobressaltos, vou até junto da cama de Eid verificar se dorme, se tem o corpo recolhido sob os cobertores, para depois me retirar, pé ante pé, com o fim de não bulir a calma do mundo. É quanto me basta para sentir que cumpri.
De seguida, voltarei para o descanso, procurando não contar as horas que faltam até chegar o instante de tudo começar outra vez, no insondável da noite maior e clara que o horizonte trará rendida.