A palavra é pluridimensional, à semelhança da natureza física. Olha-se de um ângulo e tem um significado, olha-se de outro e tem outro. Olha-se de mais à esquerda ou à direita e surge novo sentido. Há sempre perspetivas diferentes para se olhar.
As palavras são como as pessoas. Nunca se sabe o que pensam. São móveis. Não se detêm um segundo. Tornam inúteis os dicionários.
Têm o infinito nelas. Um infinito de coisas ditas e por dizer, de coisas magicadas, remoídas, calculadas.
A mesma palavra varia conforme o uso. Conforme quem a diz. Há ocasiões em que o seu significado até pode parecer imutável, mas se virmos bem acabamos por lhe descobrir uma noção imprevista. Basta ser proferida em ritmo menos habitual para logo variar o seu nexo ou alcance. Ou ser proferida com maior vibração vocálica. Dita a gritar é uma coisa, dita a murmurar é outra.
E também insinuam, suspeitam, ressentem-se. Algumas, até, não perdoam. Amuam e vingam-se. Por vezes, adoecem: constipam-se, resfriam, engripam. Ou deprimem e não lhes apetece ir a parte alguma.
Quando se zangam, não é brincadeira. Armam um pé de vento e ninguém se entende durante uns tempos. Mas depois vêm ao lugar e recuperam a sensatez. Para que não se quebre o fio.