quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ainda estou na ilha e já saí dela. Como se me esquivasse por aqui e por ali. Qual ladrão que abala para não deixar rasto.
A ilha que há em mim acabou desde há muito. Está de fugida desde que nasci.
Levanta-se todas as noites e desata a correr à frente do que acontece, para que não lhe façam perguntas, para que não queiram saber do seu rumo, para que esqueçam a sua sombra débil.
Fujo da mão dominadora que a não contém. Fujo, embora desconhecendo para onde vou, embora não me entusiasme descobrir outro sítio onde instalar os meus haveres parcos. Partirei para uma cidade qualquer, é certo, mas se permanecesse onde estou a diferença seria pouca.
Ainda assim, não admito desfalecer num canto. Pode ser essa morte a que me espera, mas é dela que fujo também.
Irei para um lugar qualquer, que o meu destino é fugir. Fugir da ventania que inunda. Fugir da alma a doer. Fugir sem olhar para trás e sem olhar ao fim.
Dormirei onde calhar, onde houver um monte de erva sob a luz de um candeeiro na estrada. Para que passem os cães olhando-me de lado, antes de decidirem aproximar-se dos ossos que foram meus.