Fui em frente não sei para onde. Ignorava que caminho seguir. Afastei-me do embalo das ondas, do bramir da espuma no azul (cinzento, tantas vezes) e procurei não pensar. Se pensasse, não avançaria meia dúzia de metros porque me daria conta de que estava a mudar a agulha dos tempos e não me atreveria a fazê-lo, por medo da irreversibilidade que me cairia em cima.
Acelerei o passo e fui olhando para as novas paisagens que vinham ao meu encontro. Visões que nunca imaginara. Os carros que passavam não queriam saber de me dar boleia. A ausência de árvores nas colinas secas e despidas. O céu imóvel como se aquela nunca tivesse deixado de ser a sua posição.
Perguntei-me se valeria a pena recorrer a Deus no bulício de tais circunstâncias. Mas Deus não me respondeu. Estava acima de todas as coisas e não tinha disponibilidade para se preocupar comigo. A sua grandeza não tinha forma de dialogar com a pequenez que constituía o meu ser.
Éramos criaturas abandonadas no meio da cidade e não víamos razões para que confiassem em nós. Corríamos em direção ao mais ligeiro sinal de mudança como animais sequiosos, encharcando-nos pela noite dentro.