terça-feira, 7 de agosto de 2012

Sill era diferente da maioria das pessoas. Ao segundo ou terceiro encontros que tivemos, sentou-se à minha frente e contou a vida. Contou o que lhe fizeram em criança, onde abandonaram a sua memória, onde lhe confinaram o tempo. Quinze anos de ausência.
Os progenitores decidiram partir por caminhos divergentes e não lhe restou outro destino. O seu rosto foi depositado no vazio. Tinha três anos de idade.
Não contou se se lembrava dos sentimentos que teve na altura em que foi entregue à solidão de quatro paredes de uma organização religiosa. Não pormenorizou. Talvez para não desabar num choro. Contou a sua história, mas denotando um desprendimento sistemático e convincente, quase como se, na prática, tivesse há muito tomado a decisão de a manter oculta.
Ria bastante quando contava o que contava. Ria e fumava, explicando-se com as mãos como se não pudesse parar e não parava para não se dar qualquer possibilidade de reflexão.
Era o início da noite e estávamos numa esplanada com brisa trazida do mar ali mesmo à beira. E ainda assim o calor apertava atravessando o ar denso como um cutelo tresmalhado. Como se quanto mais brisa mais calor.
Apetecia-me fazer perguntas atrás umas das outras, mas achei que era meu dever moderar-me. Sill tinha o direito de se restringir às palavras que considerava necessárias e adequadas à sua história. Nos seus olhos passava a demora. A maneira de uns lábios escrevendo à medida que as palavras não desistiam de falar.