sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Tinha engravidado como se por obra do acaso, ao ponto de viver com a sensação de que o novo ser que tinha dentro de si não lhe pertencia. Não imaginava sequer como fora possível ter engravidado. Há muito que pensava ser estéril e, de repente, recebera uma tal notícia. Talvez tivesse acontecido enquanto dormia. Não se devia excluir qualquer hipótese. Considerava mesmo uma injustiça que não fosse o ventre de Mon a alojar o feto. Mon tinha uma forma de ser atenciosa e dedicada. Era elegante, ágil, leve. Tinha mãos e dedos finos e parecia transformar em cristal as formas em que tocava. Depois de Lessin nascer, Mon haveria de passear o seu carrinho, dar-lhe o biberão, cantar-lhe melodias para adormecer. Dil não tinha vocação para semelhantes tarefas, apesar de se passear de barriga inchada pelas ruas como um navio a transbordar de carga que vai entrando no porto. A sua forma de andar tornara-se pesadona. Tinha passada larga, gestos bruscos. Não faltava quem observasse o seu corpo com perplexidade e até com alguma dúvida…