domingo, 16 de setembro de 2012

Regressar a casa e não ter casa. Ter paredes, ter móveis, ter quadros nas paredes, ter loiça nos armários e vestuário nos roupeiros, mas não ter casa.
Nada fazer sentido. Olhar em volta e não ver memória. Apenas as sombras das sombras em volta.
Onde coloco a verberação que era minha? Onde a reconstruo? Peço ajuda a quem? Que poderei dizer em meu favor?
Dou meia volta e venho para a rua em busca de algo que me reoriente. Na rua, porém, o que vejo é tão desolador como na casa que tive e que deixei de ter, embora continue exatamente igual ao que era, intocada nas suas frestas e planos esquálidos, quase dando a ideia de me receber com a dedicação de antes quando era casa verdadeiramente e vibrava de significados. Perdi-me. Deixei de pertencer a um lugar. Vim do estrangeiro e cheguei a parte nenhuma, sem trazer bagagem, só a roupa no corpo e pés para continuar, sabendo que não reencontrarei a casa, nem a memória, nem a cor das noites por viver.
Ando por andar, em procura de nada, como se ainda houvesse esperança, como se ainda houvesse um assomo de casa e de mim.
Nem o som da Lua se mostra para me redimir. Ou o voo do tempo desarticulado no sonho que logrou escapar.