quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sentou o corpo pesado sobre a cadeira, olhou Mlit nos olhos e disse:
- Não voltes a fazer-me tal coisa!
Mlit percebeu que tinha pisado o risco e tentou desviar a conversa para o assunto que haviam interrompido na noite anterior. Mas Sran não se deixou levar. Manteve os olhos no chão, sem acrescentar palavra ao que havia dito. O seu silêncio derramava-se. Mlit que se cozesse, que telefonasse a alguém para desabafar o que bem quisesse.
O relacionamento de Mlit e Sran parecia seriamente afetado. Talvez de forma irremediável. Havia um cansaço, uma desistência, uma mudança de percursos íntimos que desequilibrava os sentimentos. Partilhavam a casa há quase dez anos e nunca tinham perdido a noção do que lhes competia. Agora, porém, dava a ideia de que havia um afastamento irremediável que apanhava as suas consciências em sobressalto.
Para Sran, não era o dinheiro que estava em causa, mas a atitude de Mlit. Considerava-a reprovável. Jamais calculara que alguma vez pudesse ocorrer. Muita gente ia longe de mais por meia dúzia de patacos, mas Mlit nunca se incluíra em tal número.
E agora Sran já não tinha a certeza do que pairava nas zonas recônditas da imaginação que abundava em Mlit.
Instalou-se uma suspeita crescente no espaço da sua coabitação. Acordar, sair da cama, enfrentar a crueza dos móveis que preenchiam o vazio da casa era escancarar portas ao sofrimento: Mlit não encarava Sran e Sran não encarava Mlit.