A voz chegava do outro lado do fio em forma de guitarra, levando-nos à esperança de que não se calasse, de que atravessasse o lento fragor dos tempos, para nos amar na leveza do seu peso.
Vinha de Paris, Amsterdam, Barcelona, por entre propostas e desenganos, quando dormíamos à sombra de prédios rente ao barulho dos carros passando sob a Lua demoníaca.
Vinha de Madrid, de Florença, de tanta cidade em que tropeçávamos e nos perdíamos. E conjugava o lamento dos caminhos que rasgávamos, dos sonhos que chorávamos sob um vento de pássaros navegantes.
As noites não se condoíam. Só a voz do fio nos destronava, nos prendia nas suas garras, nos apontava às vagas. Para nos sobreviver, depois das cidades e das suas cinzas. Entregando-nos à fome, ao desprezo, ao frio. À pútrida lama.