O inverno passa por dentro da noite rasgando as suas feridas, expondo-as, revertendo-as. Passa a chuva, fria e densa, de tão mole, sobre a inibição.
Rangem as janelas fustigadas. O vento corre acenando a quem se atreve. Avança numa direção e a seguir noutra, com o fim de confundir, surpreender.
É o castigo da alegria, a mordaça da voz, o desaparecimento num país por conhecer.
Quando o inverno toma conta dos meus sons, recolho aos lençóis e não faço contas, nem reflito sobre quem sou. Deixo ir a realidade na minha aventura dramática, deixo cair a noite funda sem questionar.
Assaltam-me correntezas, medos desconexos, imagens difusas de tempos antigos. Atam-me no silêncio, impedem-me os movimentos.
Mas não me deixo sucumbir. Barafusto, debato-me, reajo. Saio da cama, recomeço.
Para descobrir que o inverno é um fio de frio que se enrola no pescoço e vai apertando. Apertando aos poucos. Até dar cabo da alma.