terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Corremos nas águas da noite à luz de Lisboa, descemos o fado das docas à foz, nós, pobres famintos. Cantamos descendo no rio das margens e dizemos a história dos nossos que se foram, das guerras que travaram contra a fúria do nada, que tu também Inês morta vais de barco rasgando o tempo e vai Nuno Álvares e Sebastião e o Marquês e o seminarista de Santa Comba. Vão em coro no seio do Tejo, em viagem e loucura, vão sem regresso, levar a chama da morte em todo o lado.
Temos por destino seguir a dor do fado no Tejo em frente da nossa memória. Em teu nome remaremos, ó rio de bons desenganos, que nem assim te trocamos por outro que venha. Podemos fugir, podemos negar-te, podemos tanta coisa que não mereces, mas é porque escolhemos o lugar junto das tuas águas correndo em dor. E a tua dor é nossa todas as vezes.
Se cantar pudéssemos, ergueríamos a tua voz em vez da nossa, quando os barcos descem levando as almas na corrente, umas atrás de outras, por ciúme e equívoco.
Morrerás adiante, sob a perfídia. Que o fado nos alente.