Era domingo de manhã, a cidade estava mergulhada em cinzento, vendo-me seguir junto ao mar à espera da hora que me levasse. O vento corria de manso, uma espécie de brisa, e na marina ouvia-se bater os cordames, um bater que parecia de chocalhos, ruídos metálicos baloiçando, o que me trouxe a lembrança dos campos da minha infância quando as enxadas cavavam a terra nas tardes desoladas e longínquas. Pediam que me agasalhasse para não constipar, mas eu já pressentia a cidade ondulante nos seus vagos silêncios aos domingos, cidade nua e tiritante, que já nem as missas alvoroçam. Dizia que sim, que me havia de agasalhar, mas a verdade é que não dava importância aos avisos. Eu queria era descobrir o mistério insano que havia nas cidades. Se insano não fora que mistério poderia haver?
Estava eu nestas reflexões, quando me caíram umas bátegas de chuva, esparsas e grossas, nas lentes dos óculos, querendo saudar-me, abrir-me os olhos para alguma coisa que eu devia guardar, enquanto vinha no meu passeio, matutando na paisagem que me seguia como um cão de nariz a farejar-me as botas.
Via-se o manto encrespado das águas sob as nuvens esforçadas que rasavam e o sol frio sobrevoando o molhe do porto, onde os guindastes repousavam junto aos navios.
Faltavam minutos para a hora de partir. Abotoei o casaco, e agasalhei-me, antes que a infância se lembrasse de me fazer regressar e com ela a voz autoritária avisando-me para tomar cuidado que se estava no tempo das constipações.