Sou da cidade escrita pela doença, pelo medo esvoaçante, pelo silêncio que se conforma e se verga. Sou da rua esquecida depois do beco que o frio atravessou para me assistir à beira de expirar.
Foi na cidade sem cor que nasci e é no seu bolor que continuo a viver. Cidade sem cabeça, com alma transgredida, onde as coisas sucedem por ausência de limites, orfandade, conjura.
Brotou de mim, a cidade. Das minhas incongruências, nefastas solidões, esperas descarnadas.
Morro tantas vezes durante as horas do seu negrume.
Era esta a cidade que eu não amava, quando seguia ordeiramente nos seus passeios de pedras floridas.
Desde criança que faço deste tempo o meu ósculo de amarga promessa.
Devia ter sido profeta, para revelar o ódio à espera nos jardins do seu devir. Devia ter parido mil vezes, para te servir, ó cidade em ruínas, que te encontro ainda respirando sob o lençol com que te cobriram em ferida.
Mas não permitirei que te levem. Fenecerás aqui – exatamente aqui – onde o fio da minha voz escorrerá para o lodo. E assim se cumpra.