quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Saímos de Lisboa para estar perto da família. Sivd e Dro já tinham descido à terra, mas queríamo-nos junto das suas almas na cova onde se abrigaram, para abraçarmos o calor dos seus restos mortais e murmurarmos ao ouvido o que nunca antes lhes havíamos murmurado.
Partimos para nos redimirmos, para nos revermos nas sombras revoltas de tanto sentimento por realizar.
Pedimos ajuda a quem passava e acabámos por seguir um grupo de gente que percorria caminhos rezando. Há centenas de anos que oravam em grupos nas ruas. Por motivos que ninguém precisava de saber. Era um mistério que as vozes exaustas carregavam. De cabeças vergadas, havia sempre mais um passo que deixava o destino por explicar.
Andámos até ao limite do nosso poder. Já nem tínhamos ideia das palavras que dizíamos. Só vislumbrávamos névoa e névoa sobre o horizonte do silêncio que nos enfrentava em cada curva do destino.
Não se sabe quanto tempo passou. Nunca se saberá. O que passou obedece ao peso da consciência.
Chegámos ao fim. Mil vezes chegámos.
Abrimos a porta de casa e demos com os móveis suspensos em volta, com o translúcido abençoando o nosso regresso.
Estendemo-nos sobre a cama e entregámo-nos como nunca antes tínhamos feito. Entregámo-nos até que o futuro nos possuísse e deixasse levitar
Mais tarde, viria Aars, bênção das ventanias erigidas em lugares com nomes por atribuir.
A luz espreitava cautelosa rente às sementeiras nos vales abruptos. Fio bordado no cantar do ferro que amanhecia.