Escrevemos para existir, para continuarmos, para chegarmos mais longe, mais alto. Para darmos sentido aos tempos em que vamos mergulhando.
Não fora o desafio dos tempos e não teríamos maneira de avançar, de conhecer melhor, de saber o alcance a que cada descoberta pode levar.
Assistimos ao nosso desempenho como se habitássemos outras almas e apreciamos com a sua visão as atitudes que tomamos. Demarcamo-nos e distanciamo-nos e assim nos reinventarmos. Com a escrita o fazemos.
Para muita gente, escrever é uma vacuidade, um artifício que o quotidiano torna necessário, uma atividade que se confina ao significado estrito das palavras.
Mas escrever é mais do que escrever. É pensar para lá do pensamento, é corromper em cada instante o que se apresenta como plenitude, é ver o que virá mesmo que só nos espere o vácuo, é morrer e prosseguir em busca do que jamais se há de atingir. Um amor para lá dos limites, exaurindo-se em signos, em murmúrios borbotando na superfície lisa sobre a qual a espuma definha.
Escrever conduz-nos a lugares cujo nome falta dizer, a territórios imprevistos onde não há pássaros nem ruínas, a matérias descomunais com precipícios elevando-se.
Vemos as coisas surgidas de outros ângulos, vestidas de corpos novos, eivadas de alentos que recomeçaram. E escrevemos com a luz que nos vem do amor.