segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O que deixamos para trás não fica necessariamente esquecido em obediência cega ao calendário. Cola-se-nos, acompanha-nos, não nos larga por anos. É uma pele que se alonga, se adapta, se distende a cada dia.
Por mais que nos queiramos libertar, não se desvincula, não quebra. É elástica, molda-se por todas as formas. É a nossa verdadeira pele, a que conta, a que pesa, a que coincide com a soma da realidade.
É uma pele que não vemos quando nos miramos ao espelho e quem nos olha na rua ou no sítio onde trabalhamos também não a enxerga.
Esta pele é um assunto só nosso. É a pele do nosso remorso, do nosso egoísmo, da nossa indiferença e orgulho, e tantas outras peles que se adicionam à natureza de que somos feitos.
Mas esta pele que não tem maneira de nos largar é a pele que mais nos protege e redime. É espessa para nos definir, mas é-o também para nos abrigar do frio que atravessa o mundo na sua impiedade, para nos envolver no manto acolhedor das coisas acontecidas e que nos tornam resistentes a quase tudo. É uma pele escrita de tempestades e de dias luminosos, uma pele de guerras e de conciliações, de abandonos e de recomeços, de ameaças e de ofensas perdoadas. Uma pele que se eterniza enquanto as vidas passam.