Li algures que é importante dar um destino às personagens de um romance. Desenhar-lhes uma história com princípio, meio e fim. É possível que deva ser assim. Mas que se há de fazer depois de se saber o destino que tiveram essas personagens? Que acontece a seguir ao desfecho? As personagens vão até onde? Como posso decidir um fim? Se o fizer, não estarei a ceder perante o leitor? Por que me hei de preocupar com o destino das minhas personagens? Não são elas donas dos seus caminhos?
Se as personagens surgem num romance sem que se tenha necessariamente de saber de onde vêm, não compreendo por que se há de conhecer a meta do caminho que seguiram.
Num romance, as personagens estão. Mesmo que desapareçam, continuam lá. É como na vida real. Está-se sempre, ainda que se morra. Está-se nos outros, nos seus olhares, desejos, recordações. Se todos temos uma origem comum, não há razões para pensarmos que uns terminam e outros continuam. Estamos, sem exceção, nesse movimento que nos criou, nos sustenta e nos conduz.