Hoje foi como se tivesse amanhecido na minha noite longa. Vim à rua espreitar o que sucedia na passagem dos ventos junto ao rio e deparei-me com Eid subindo os degraus que saíam da água. Corri para os seus braços e anunciei que não voltaria a desaparecer, que a partir daquele momento estaria sempre na sua companhia, que tinha abandonado todos os compromissos a fim de podermos partilhar o tempo das nossas vidas daí em diante. Pedi-lhe desculpa pelas minhas ausências, por não lhe ter dado a atenção que merecia, por não ter permanecido à sua beira para amenizar as suas gripes e tosses, por não ter tido a oportunidade de cobrir com mantas quentes o seu corpo franzino nas noites de invernia.
Eid pediu que me calasse, disse que não fazia mal, garantiu que eu estivera sempre a seu lado em todos os momentos e circunstâncias, insistiu que a presença física não era uma obrigação do amor, mas quanto mais as suas palavras me atravessavam, maior era a minha consciência de que eu fracassara na sua educação.
Eid crescera depressa nos anos e só quando verifiquei que estava do meu tamanho tive coragem para mudar de vida e aproximar-me dos seus redutos e andanças. Era tão grande o peso na minha alma que nem o perdão que recebi me trouxe alívio. As horas deslizavam no Tejo, junto às colunas do medo, e as suas águas estremeciam de amor pela noite que havia em mim.